E ao luar, tu choraste.

01:44


Éramos mais novos quando tudo aconteceu. Não haviam compromissos e eu gostava disso, mas talvez tenha sido isso que não nos manteve juntos.
Tínhamos a lua sobre os nossos corpos, e encostados a um carro antigo, estávamos nós. Beijavas-me de dez em dez segundos e eu adorava o facto de gostares de me beijar. Os teus lábios eram diferentes de todos os outros. Eram os mais sensíveis, os mais ingénuos e os que mais me acalmavam. Eu abraçava-te várias vezes exatamente por saber que não tínhamos nenhum compromisso e um dia tudo poderia acabar. E tu também tinhas medo.
Mais tarde, nessa mesma noite, estávamos na rua e eu estava chateado porque precisava da tua atenção. Não era só um capricho de um puto mimado; era porque eu gostava de te ver a olhar para mim. Alguma vez te disse o quanto os teus olhos eram lindos? Não sei... Talvez tenha dito. Como disse, nessa noite percebi que também tinhas medo de me perder. De repente, sentaste-te numa paragem de autocarro que encontrámos na rua e olhaste para mim. Eu fiquei de pé a observar-te e a dizer-te tudo o que sentia: o quanto gostava de ti e todos os meus medos. E ao luar, tu choraste. As lágrimas começaram a desbotar dos teus olhos e imediatamente eu me calei. Sentei-me ao teu lado e abracei-te. Abracei-te com força e perguntei-te porque choravas. Tu, a soluçar, disseste-me que não me querias perder.
Só eu sei o quanto me doeu ver-te assim, com o rosto cheio de lágrimas, mas só eu sei também o quanto eu fiquei feliz por saber que não me querias perder.
Limpei-te as lágrimas na cara, acariciei-te, e olhando-te nos olhos disse-te:
-Não penses nisso. Agora estamos aqui juntos. Estás comigo.
Dei-te a mão, levantei-me e tu vieste comigo. Acendi um cigarro e fomos até minha casa.
Já era tarde e não queria que fosses embora, por isso, convidei-te para ficar. Dormimos, então, juntos pela primeira vez. O sol começava a nascer a Este; sorri para ti e tu, automaticamente, retribuíste o sorriso. Foi nesse instante que te disse que te amava pela primeira vez. Nunca o tinha dito antes pois sabia o valor que essa palavra tinha e não a queria usar sem que fizesse o devido sentido. Mas fez, garanto que fez. Senti-me completo naquele momento. Tu sorriste e disseste-me baixinho que me amavas também. Sobre a almofada deitámos a cabeça e adormecemos, a transpirar felicidade.
No dia seguinte, acordei cedo. Tinha vontade de ir contigo a uma pastelaria tomar o pequeno almoço, por isso acordei-te. Enquanto, já na pastelaria, bebia o meu café, tive sempre o olhar posto em ti. Sabe Deus o quão bom era estar contigo logo de manhã. Acordar e ter-te ao meu lado. Ver-te a abrir os olhos e a beijares-me de seguida. Tomar a primeira refeição do dia do teu lado. O sorriso foi algo que se tornou permanente na minha cara, durante muito tempo.
Voltámos para casa, e fomos ver um filme. Notava-se o cansaço no teu olhar, e era normal. Adormeceste, no sofá, logo no início do filme e eu fiquei o tempo todo a olhar para ti e a fazer-te festinhas na cara e no cabelo. Disse-te o quanto a tua pele era suave e o teu cabelo macio?
Acordei-te apenas à hora do almoço. Assim que acordaste, começaste a brincar comigo. Fizeste-me imensas cocegas e para me vingar, fiz também, até que acabámos os dois no chão. Disse-te que te amava mais uma vez e levantei-me de seguida. Fui preparar o almoço e comemos os dois do mesmo prato, com os mesmos talheres. Demos a comida à boca um do outro e divertimo-nos imenso. Para além de apaixonados éramos grandes amigos. Tu sabias que eu nem era daqueles romantismos, mas contigo apetecia-me, e resultava bem.
Acabámos a refeição, e mais tarde chegou a hora da tua partida. Tínhamos estado tanto tempo juntos, mas tinha passado tão depressa, que mais parecida que tinham sido apenas cinco minutos. Com tristeza, saí de casa contigo e levei-te até ao táxi que te esperava. Abracei-te com toda a força que tinha e vim-me embora, com medo de começar a chorar; tu sabias que detestava despedidas, não fez mal.
Mal sabia eu que era mesmo uma despedida... Desde aquele dia, nunca mais te vi. Continuámos a trocar cartas durante uns tempos, mas era impossível estarmos juntos. Tínhamos o trabalho, a família e o nosso lar longe um do outro, não dava para conciliar... Sabíamos que o que sentíamos não iria ser apagado assim, mas com o passar do tempo o contacto foi-se perdendo. Continuei a ir todos os dias à minha caixa de correio, mas a única correspondência que agora encontrava, eram as contas que tinha para pagar.
E o tempo passou e hoje mais velhos estamos. O tempo passou, mas não houve nenhum dia em que não pensasse em ti. Penso em como estarás.. Se ainda pensarás em mim... Eu creio que sim, pois o que nós vivemos foi algo diferente, capaz de marcar uma pessoa para o resto da sua vida. Aprendi a viver sem ti, mas ainda existem os dias que custam mais a passar sem ter notícias tuas. Por isso escrevi esta carta... Apenas para que saibas que nada do que nós passámos foi esquecido por mim.
Talvez coloque este papel num envelope. Talvez chegue até ti, talvez não. Mas se chegar, lembra-te sempre de mim quando olhares para a lua. Pois, quando sinto mais a tua falta, é nela que te encontro.

You Might Also Like

27 comentários

  1. "Tínhamos a lua sobre os nossos corpos, e encostados a um carro antigo, estávamos nós." adorei, escreves muito bem! que amor arrebatador!

    ResponderEliminar
  2. arrepiante , fiquei com a lágrima quase a cair !

    ResponderEliminar
  3. É um texto simples mas, sem sombra de dúvida, carregado de sentimento :)
    Adorei ler, continua o bom trabalho!

    ResponderEliminar
  4. Lindo e muito emocionante. Fogo nao me contive...aii me vieram as lagrimas. Adorei, muitos parabéns <3

    ResponderEliminar
  5. Está muito bom! Sem dúvida que nos deixas de lágrimas nos olhos.. Parabéns (:

    ResponderEliminar
  6. Muito bom mesmo afonso continua assim.
    deixaste-me de lagrimas nos olhos, um amor muito bonito e sincero.
    :) beijo

    ResponderEliminar
  7. Amei mesmo :')
    Parabéns
    A história é veridica ?

    ResponderEliminar
    Respostas
    1. Mt obrigado!
      É uma história criada por mim, mas claro que tive de me inspirar em algo. :)

      Eliminar
  8. Para quando um livro teu? Tens a alma de um escritor, parabéns! :)

    ResponderEliminar
    Respostas
    1. Quem me dera que fosse para breve!... Muito obrigado!

      Eliminar
  9. Se isto realmente aconteceu, é das coisas mais lindas que já vi! :)

    ResponderEliminar
  10. sem palavras :) grande capacidade de escrita

    ResponderEliminar
  11. Muito bom mesmo, partilhei :)

    ResponderEliminar
  12. Encontrei neste fórum a partilha do meu texto. Agradeço todos os elogios no fórum e fico contente por tanto terem gostado, e partilhado!
    http://www.tech-gamers.pt/forum/topic/37146-um-texto-bonito/

    ResponderEliminar