Dois cafés e um pastel de nata.

22:26


Ele via-a todo o dia. E tentava ver para além do simples visível. Queria ver nela o que mais ninguém via; polir bem a pedra que sabia com todas as certezas, ser diamante.
Ela vivia no prédio em frente, com um macho. Sim, até do gato sentia inveja. Daria quase tudo para poder ter tão bonitas mãos a passarem no seu rosto, nos seus cabelos, assim como a via fazer. Na verdade, tinha inveja até do ar que ela respirava. Haveria melhor dióxido de carbono do que aquele por ela lançado?
Todos os dias de manhã se sentava na mesma esplanada, apenas uma mesa ao lado. Há muito tempo, ao sentar-se disse “Bom dia”. Foi a primeira e única vez. Ela não o ouvira. A concentração no livro que lia era algo impressionante… Parecia não estar ali. Havia dias em que a ouvia rir, outros em que quase se assustava, também havia aqueles em que ficava comovida e até aqueles em que ficava chateada com uma personagem e se punha ali a reclamar com ninguém, pelo facto de a história não ser como desejava ou esperava. Ele achava piada; às vezes tinha mesmo de fazer esforço para não se rir. Nunca o poderia fazer, perderia automaticamente a hipótese de algum dia lhe arrancar um sorriso.
Era linda quando sorria. E tão educada, era mesmo uma pessoa delicada. Pedia sempre a mesma coisa, ele já sabia de cor: um café cheio e um pastel de nata. Enquanto lia um livro, ia bebendo o café e apenas dava uma ou outra dentada no pastel. Quando dava por si a inclinar a chávena de café, já tinha acabado e nem tinha percebido, tal era a concentração na leitura. Não podia comer o resto do pastel de nata sem acompanhamento. Dois cafés, acabava sempre por beber dois cafés. Depois de ter comido e pago, fazia sempre uma birra consigo mesma, por ficar no conflito entre ter de ir embora e querer acabar de ler o livro. Ele achava piada, mas não se ria.
Ela não era adorável apenas de manhã. De noite ele ia para a janela, esperar que do outro lado da rua, surgisse da segunda janela do terceiro andar, o motivo pelo qual tinha vontade de se levantar da cama todos os dias. Lá ia ela fumar o seu cigarro. O gato seguia-a e saltava para o parapeito da janela, sempre a pedir-lhe festas. Ela fazia-lhe a vontade, e a meio do cigarro ele já se tinha fartado e voltado para dentro. Ela encostava-se a uma das extremidades da janela e sentia o vento, de olhos fechados. Os seus cabelos longos ao vento deixavam-no hipnotizado. Aquela rua era silenciosa, e a paz que ela encontrava ali era a mesma que ele tinha ao ver a sua cara de satisfação.
O que diria ela se algum dia soubesse que era observada de uma maneira tão intensa? Se tivesse olhos na cara, decerto que entenderia que ele era apenas um bom apreciador de arte. Não era maluco, aquilo não era uma história de obsessão. Ele queria que fosse uma história digna de ser escrita, mas apenas para que mostrasse o quão ideal alguém pode ser.
Às vezes deixava-lhe flores à porta. Ela devia achar que estavam enganados na morada, mas não, ele nunca se sentira tão certo. Tinham tanto em comum! Ele não queria apenas aproximar-se dela, para que um dia pudesse acabar dentro da sua cama, a dividirem um cigarro depois de fazerem amor. Ele só queria estar perto dela, porque de facto, conseguia ver nela o que mais ninguém via. Mas de que adiantava isso? Porque se escondia? Como iria acabar uma história à qual talvez nem se pudesse chamar história? Via-a todo o dia, mas nem sequer sabia se ela realmente existia.

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